Roubando tempo para fotografar

Uma reflexão sobre como podemos aproveitar nosso tempo entre uma tarefa e outra para fotografar mais.
(Publicado originalmente Coluna Fotocultura da Revista EVF em Novembro de 2014)

Sempre escuto pessoas, amantes da fotografia, falando "ah, mas eu não tenho tempo para fotografar..." ou coisas do gênero. Então penso, a vida é muito corrida mesmo, temos muitas obrigações, compromissos, trabalhar, estudar, cuidar da família, etc. 

Pois neste artigo é com essas pessoas que quero falar, as que não tem tempo para fazer o que gostam, fotografar, mas poderia valer para quem gosta de fazer música, escrever, desenhar, etc.

Roubando tempo para fotografar
78, por Yuri Bittar, abril de 2012

Mas então, como resolver esse problema? A prática da fotografia exige, acima de tudo, experiência e treinamento do olhar. Não há bom fotógrafo sem muitos “quilômetros rodados”. O que fazer então, se você gosta de fotografia, mas não consegue tempo para praticar?

Eu resolvi esse problema simplesmente roubando tempo para fotografar! È isso mesmo, eu roubo tempo. Roubo tempo da hora do almoço, dos deslocamentos pela cidade, de quando tenho que ficar em algum lugar esperando algo por uns minutos, e assim por diante. 

É por isso que penso que o tempo para fotografar (ou para ler, pintar, amar, enfim, fazer o que gostamos) tem que ser um tempo "roubado". Afinal, as coisas mais gostosas da vida normalmente acontecem assim, na hora delas, de surpresa, e não no momento planejado. Essas coisas, as melhores, não são as biologicamente necessárias, mas são essenciais para viver, para ser feliz e realizado. 

Daniel Pennac, escritor romancista francês, falando sobre a leitura (mas podemos aplicar a ideia à fotografia), nos dá uma pista para entender isso:

Aperto urbano / Urban crowd
Aperto urbano, 2014

O tempo para ler é sempre um tempo roubado. (Tanto como o tempo para escrever, aliás, ou o tempo para amar.)
Roubado a quê?
Digamos, à obrigação de viver. [...]
O tempo para ler, como o tempo para amar, dilata o tempo para viver.
Se tivéssemos que olhar o amor do ponto de vista de nosso tempo disponível, quem se arriscaria?
Quem é que tem tempo para se enamorar? E no entanto, alguém já viu um enamorado que não tenha tempo para amar?
Eu nunca tive tempo para ler, mas nada, jamais, pôde me impedir de terminar um romance de que eu gostasse.
A leitura não depende da organização do tempo social, ela é, como o amor, uma maneira de ser.
Daniel Pennac

No fundo, não é questão de ter tempo para fotografar, mas sim de se apaixonar pela fotografia, deixar que ela ocupe um espaço no seu dia. Assim a fotografia fará parte de seu estilo de vida, e você trará a arte para a vida cotidiana, e levará a vida cotidiana para a arte! E dessa forma você fará com que o tempo se expanda. As coisas que você gosta, arranjarão espaço na sua rotina, como a arte e a fotografia! 

Esse tempo roubado na verdade se torna um tempo dilatado. 

Vamos lembrar daquele “cara” que sabia de tudo, Platão, o que ele falava sobre isso? Bom, para ele "o belo é o esplendor da verdade" e "o que mais vale não é viver, mas viver bem". Portanto é preciso não apenas resolver nossos problemas do dia-a-dia, mas buscar também tornar nossa rotina mais bela, melhor. 

Tower
Torre, por Yuri Bittar, São Paulo, abril de 2012

Algo que tem me ajudado a melhorar a qualidade do meu olhar, e consequentemente da minha vida em geral, é a “fotografia contemplativa”, que, mais que uma técnica, é uma forma de ver o mundo, que vem da meditação e do budismo, e que é basicamente um meio de deixar olhos e mente mais abertos para ver a realidade como ela é, perceber a beleza das coisas comuns e desenvolver a criatividade. 

Lembre-se que se expressar por meio da arte é uma forma de “terapia” e é muito saudável!

Resumindo, aconselho a quem gosta de fotografia que faça um esforço e “roube” um tempinho para fotografar e “ver” o mundo com mais frequência! 

Yuri Bittar, por Fabio Uehara

Sobre o autor: Yuri Bittar

Yuri Bittar é designer, fotógrafo e historiador. Atua como designer gráfico, e desenvolve cursos de fotografia, exposições e as saídas Fotocultura, além de pesquisas sobre humanização no ensino da saúde. Através da história oral, da fotografia, da literatura e outros recursos, tem buscado criar projetos mais próximos ao humano e que contribuam para a melhora da qualidade de vida.

Contato: Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.

Site: http://www.yuribittar.com